quarta-feira, 12 de março de 2014

A Cadeia do Arroz, enfim, com os olhos voltados para o mercado!

A Cadeia do Arroz, enfim, com os olhos voltados para o mercado! A cidade de Mostardas no RS, no período de 19 a 21 de fevereiro acolheu delegações de todas as regiões produtoras para a 24ª Abertura da Colheita do Arroz. Tudo correu as mil maravilhas, da organização ao clima, da participação dos agentes (produtores, agroindustriais, técnicos, expositores) ao entusiasmo contagiante dos presentes. O ponto alto do evento foi a percepção da mudança comportamental da maioria dos agentes, ao invés de estarem com os olhos voltados para o governo, voltaram-se para o mercado. O discurso do Presidente da Federarroz na solenidade de abertura registrou bem este novo direcionamento, manifestando poucas reivindicações aos representantes do governo: - reajuste do preço mínimo; liberação dos recursos de comercialização para que esta possa ser feita de forma escalonada; e, ações do IRGA para o setor buscar novas formas de comercialização. A visão da cadeia do arroz na direção do mercado já havia sido sinalizada pela feliz escolha das palestras técnicas, que teve no primeiro painel: - “O IRGA com Olhos no Futuro”, em que o presidente do instituto Cláudio Pereira proferiu conferência sobre as ações que estão sendo implementadas para a diversificação da lavoura de arroz com a soja e a integração lavoura pecuária para o fortalecimento da renda do produtor, ao livrar-se da monocultura do arroz. Consideramos como patriótica uma das suas falas e que já vem manifestando há algum tempo, repetindo-a na sua exposição, no sentido da “utilização do arroz como ingrediente de outros produtos”, aos moldes do que já é feito com o leite, o ovo etc, que já são consumidos em grande quantidade em outras formas processadas. Também discorreu o Presidente do IRGA sobre as ações do Instituto na contratação por concurso público de um efetivo técnico para a Autarquia e as ações que estão sendo feitas para a exportação do arroz na parceria com a Agência Apex-Brasil. Noutro painel, sobre a Competitividade da Produção de Arroz do RS, os apresentadores discorreram sobre a situação da cultura referente a oferta e demanda no Brasil e no mundo, ambas muito bem embasadas, tendo um deles avançado em relação a perspectiva de novos produtos à base de arroz, mas permaneceu um tanto pessimista quanto a infraestrutura e logística, numa análise pouco propositiva. No último painel do dia 19 sobre a Produção de Etanol de Arroz, sob a coordenação do Dr. Ariano Magalhães Junior da Embrapa/CPACT, este discorreu sobre a variedade de arroz Gigante apropriada para a produção de etanol e que deverá ser lançada na Expointer. Apresentou a seguir o Presidente da USI, Engº Agrº Flávio Malmann, que discorreu sobre o projeto da USI-Usinas Sociais Inteligentes que irá fomentar o plantio do arroz gigante para a produção de etanol, em parte da propriedade, fornecendo ao produtor o óleo diesel e os fertilizantes, num módulo com a área total de 1.500 hectares e que terá o primeiro projeto implantado ainda este ano no município de São Gabriel, juntamente com a usina que terá a capacidade de produção de 10.000 litros de álcool por dia. Haverá a participação da empresa CHS, que ficará encarregada da logística e comercialização do etanol produzido. O outro integrante do painel, Engenheiro Vilson Neumann Machado apresentou a seguir o seu projeto de biorrefinarias com o uso múltiplo de cereais inclusive o arroz, triticale e a batata doce, cujo projeto será lançado em breve pelo Governo do Estado do RS, agora contando com o estudo de viabilidade a ser elaborado pela empresa Katzen International Inc . No primeiro painel do dia 20, a palestra “Como transformar o Arroz em Caviar” apresentada pelo especialista em Marketing José Luiz Tejon Megido, a programação técnica e comercial teve o seu ápice. O palestrante enfatizou a necessidade de o arroz empregar as ferramentas do marketing na sua comercialização, seja na venda do produto beneficiado ou na diversificação de produtos, empregando o conceito não mais de indústria de alimentos, mas agora de indústria de nutrição. Produtos saudáveis com origem controlada para um consumidor cada vez mais exigente. Um dos debatedores do Painel, o Presidente do Sindicato da Indústria do Arroz concordou com as afirmações do palestrante, mas sugeriu que os recursos para a implementação de um programa de marketing saísse da taxa CDO que é destinada ao IRGA. O palestrante retomou o tema de forma incisiva, sugerindo aspectos pontuais a serem trabalhados, apontando formas concretas de realização e conclamando o setor em buscar alternativas de novas formas de inserção no mercado. O outro debatedor e Presidente da Associação Braford e Hereford mostrou a forma de organização do seu grupo e os avanços que vem conquistando na comercialização da carne com selo de qualidade no mercado nacional e internacional. Também mostrou a fotografia de uma gôndola de arroz em um supermercado na cidade de Panamá, em que um pacote de arroz americano obtém um preço três vezes superior ao de uma marca brasileira, questionando o palestrante sobre o porque disso acontecer. No último painel “Como o arrozeiro gaúcho poderá ser um exportador” com o pioneiro na exportação de soja para a China, este afirmou a sua convicção de que a soja terá demanda crescente e o arroz também seguirá a mesma trajetória, diante da perspectiva do mundo por alimentos e o esgotamento das fronteiras agrícolas com aptidão para dar resposta a esta necessidade. Sua fala limitou-se a exportação na forma de commodity, não adentrando na possibilidade enfatizada no painel anterior sobre a transformação do produto. Como já acompanhamos os problemas da socioeconomia da lavoura de arroz há 27 anos e com mais de vinte artigos publicados, entendemos ter havido um avanço significativo na postura do setor a partir deste evento realizado em Mostardas. No período mencionado, apontamos como os principais problemas da lavoura de arroz, a monocultura, o arrendamento, a alta imobilização de capital no negócio produtivo e a comercialização. O efeito da quebra da monocultura já vem mostrando seus resultados nos preços de comercialização do arroz, assim como a compreensão pelo setor da necessidade de transformar o arroz em outros produtos com maior valor agregado e com a utilização das ferramentas do marketing trará maior renda aos agentes e as suas comunidades. O aspecto da gestão financeira da propriedade ainda não foi incluído nos dias de campo, embora conste da ata da Comissão Setorial do Arroz, tendo no custo do arrendamento da terra e da água o principal item a ser abordado. A oferta do arroz beneficiado em bolsa de mercadoria, também é outro item que ainda não vem sendo tratado pelo setor e que poderá abrir novas frentes de comercialização ao produtor e a novos entrantes. O marco mais importante desta 24ª Abertura da Colheita do Arroz que devemos comemorar e apoiar é a mudança de postura dos novos líderes, que com atitude e coragem trazem nova perspectiva a um setor que pode trazer maior progresso a uma extensa região do RS com alto potencial de produção. Parabéns a todos!

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

RE: Uma industria chamada agricultura

(Artigo publicado no site agrolink.com.br/colunistas/economia) Em artigo um tanto confuso e que não representa o mínimo que podia se esperar de um pensamento avançado de um técnico com vasto currículo profissional, o presidente da EMBRAPA defende tese retrógrada conformando-se e ainda justificando a exportação dos produtos agrícolas na forma de commodity. Tomamos conhecimento do texto publicado em jornais do país no dia 04/11/2013 e no site da instituição do dia 14/10/2013, no endereço http://www.embrapa.br/imprensa/noticias/2013/outubro/3a-semana/artigo-uma-industria-chamada-agricultura. Estamos certos que tal pensamento não representa a grande maioria dos pesquisadores da Embrapa e esperamos que também não o seja das forças políticas que lhe dão sustentação, num posto que deve pontear a vanguarda do agronegócio brasileiro. É tamanha a certeza que temos que a tese defendida pelo dirigente não é dominante na EMBRAPA, em face termos acompanhado o esforço dispendido por técnicos da Embrapa Trigo e da Embrapa Soja para levar a efeito a Américas: Conferência Internacional de Utilização de Soja. Buscam estes técnicos a agregação de valor a commodity, como há muito fazem os chineses, que não reclamam do preço que pagam pelo produto aos agricultores brasileiros. Noutra cruzada brilhante contra o atraso comercial agropecuário que ainda vivemos, um pesquisador da área do trigo afirmou que o problema da cultura não é produção ou qualidade do grão e que o seu principal problema é o comércio. Sem falar noutras ações de dirigentes de unidades da Embrapa como a de Arroz e Feijão sobre a agregação de valor ao arroz. No caso do arroz, que trabalhamos com maior proximidade, recentemente tivemos o presidente do Instituto Riograndense do Arroz – IRGA, defendendo a tese que “o arroz tem que ser usado como ingrediente de outros produtos”, como uma forma de agregação de valor e retorno de uma maior remuneração ao produtor. O Presidente Lula no Café com o Presidente de 25.05.2009, com a responsabilidade inerente a sua função na época, disse: - “Os vendedores como nós, que queremos vender, é que temos que sair, bater à porta dos outros e dizer que nós existimos, e que temos produtos sofisticados, além das commodities”. Em artigos publicados, ao longo destes últimos 20 anos, trabalhamos na direção da melhoria da renda dos produtores e dos moradores do interior do país. Com recursos próprios, pregamos a mudança de conceitos na agricultura brasileira, através da palestra “Inovações em Agronegócios”. Dizemos que: - Vender arroz em casca é como vender milho em espiga. Descascar arroz não é indústria, indústria é fazer biscoito, bolacha, chips etc. Estes textos também correm o Brasil, via internet, palestras e na mídia impressa com a maior aceitação dos agentes que temos contatado, inclusive dos seus antecessores no cargo. Enfim, evoluímos muito nas técnicas de produção e produtividade e na hora de ganhar dinheiro entregamos para outro ganhar. Em artigo publicado na Zero Hora de 14/06/2013, as lideranças municipais de Tupanciretã-RS, queixam-se que a soja é transportada por caminhões em estradas esburacadas do município em direção ao porto de Rio Grande e dali para a China. Ganham os produtores, as revendas de insumos, máquinas, fretes e sobra muito pouco para a municipalidade investir em infraestrutura e geração de empregos para os jovens, que estão abandonando o município, pois nem para óleo a soja é esmagada no local. Para termos uma idéia do que a “descomoditização” contribui para o aumento da renda municipal, temos o exemplo de Capão do Leão-RS, onde um produtor que cultiva 1.000 hectares e que beneficia parte do produto colhido, contribui com 3,3% do ICMS do município. Outra agroindústria de arroz um pouco maior, 9,8% e uma média cooperativa de laticínios, que transforma o leite em vários produtos é responsável pela geração de 37% da arrecadação municipal. Isto sem falar em municípios do Paraná, como Toledo com cerca de 119.000 habitantes e o 9º PIB agrícola municipal do Brasil e que possui uma infraestrutura invejável. Também pudera, presidente, vende filé de Tilápia a 28,00 o kg. Cria o peixe, produz a ração, engorda, abate e exporta para os EE.UU., já embalada. Outro excelente exemplo é o da cadeia do frango, que comercializa produtos diferenciados, cortes especiais e mais de cem itens aos consumidores nacionais e internacionais. Esta há muito, quase que abandonou o frango inteiro com o pescoço, pés e miúdos no seu interior, satisfazendo o consumidor moderno com maior renda e menor tempo para as refeições. Na repartição da renda desta apregoada agricultura baseada em insumos e máquinas focalizada no seu artigo, ganham os produtores mais especializados, os agentes do comércio de insumos e de máquinas, além dos empregos gerados. Para uma gama significativa de produtores, ocorre uma grande movimentação financeira, mas que ao final, em sistemas de gestão não tão aprimorados e de comércio intrincado, “trocam seis por meia dúzia”, quando não fecham em “vermelho”. Alguns empresários obtêm maiores lucros nos juros que cobram nos sistemas “troca-troca” do que no produto que vendem. Outros vendem e recebem à vista via crédito rural e “pouco se lixam” em saber se o agricultor terá meios para o pagamento, ou estabelecem algum acompanhamento ou compromisso de compra antecipada da produção. Temos o recente caso do milho no Centro Oeste, que está a desdizer o apregoado com a exportação de commodities agrícolas. Eis que este sai da zona de produção a R$10,00/saco e chega ao porto a R$28,00/saco, gastando mais em combustível, estiva e algum almoço na beira da estrada do que vale o produto na lavoura. É imprescindível que este milho saia, ou seja consumido lá mesmo, na forma de carne, álcool ou e em outros produtos em que o articulista poderá fazer a Embrapa ajudar a elaborar. Isto sem falar no café, no boi e no arroz, dentre outros. Esperamos que o presidente da EMBRAPA reveja a sua posição, busque a urgente integração das Unidades da Embrapa Agroindústria com as demais unidades para alavancar a renda das populações rurais, dos produtores e dos moradores do interior do país, para que estes não precisem se deslocar para o flagelo da vida urbana atual. Ao encerrar a sua frágil argumentação, o articulista ainda sugere a volta do malfadado subsídio agrícola, de triste memória, num país de miseráveis e credores de um vultoso investimento duma dívida histórica que temos com este povo brasileiro em educação básica e técnica. Temos que tirar a visão somente da lavoura estendendo-a ao consumidor, como muitas empresas e cooperativas brasileiras já estão fazendo. Dizemos: - “Novos produtos para um novo consumidor”. Tomemos o exemplo das indústrias de automóveis, de celulares ou de computadores, que a cada pouco reinventam os seus produtos. O agricultor brasileiro, seus técnicos e agentes econômicos podem mais que somente plantar, colher e exportar apenas commodities agrícolas, desde que a inteligência do agronegócio seja voltada também para o consumo e para o aumento da renda e que os novos conceitos sejam assimilados. Somos inteligentes, trabalhadores e criativos e o Jeca Tatú não existe mais!

domingo, 10 de novembro de 2013

A democratização do comércio agropecuário

A democratização do comércio agropecuário Quantidade de visitas: 304 17/10/2013 - 23:04 José Nei Telesca Barbosa Nestes tempos de enormes avanços na democracia política em que tudo pode ser livremente abordado, ainda há um setor em que vemos a necessidade de que seja bafejado pelo sopro do espírito democrático. A democracia pressupõe uma ampla participação do povo em que este pode escolher, fiscalizar ou retirar o apoio aos seus governantes. Claro está que há regras previamente estabelecidas sob o pilar supremo da Constituição Federal, embora haja desvios, há formas de controlá-los. Noutra ponta está o comércio de produtos, insumos e equipamentos agropecuários, completamente sem transparência ou controle, tudo ao sabor do tal “mercado”. Há a exceção em poucos produtos comercializados em bolsa de mercadoria num plano internacional, como é o caso da soja. Neste produto, antes mesmo de plantar, o agricultor já tem uma idéia do valor de venda e pode comercializar parte da sua produção. A própria soja já está sendo questionada a respeito da sua comercialização na forma bruta, em que é colhida, colocada em cima de caminhões e dali para a exportação, ficando pouca renda para os municípios de origem. Em relação aos insumos que são utilizados na lavoura, não há a obediência de regras comerciais transparentes, em vista que quanto mais sobe o preço de comercialização, mais sobe o preço dos insumos e equipamentos, permanecendo o seu motivo sob o manto do obscurantismo. A Embrapa Trigo tomou a elogiável iniciativa em promover a discussão sobre a utilização de soja em produtos de maior valor agregado, como já fazem algumas empresas transnacionais, cooperativas do Paraná e há muito tempo fazem os chineses. O mercado do boi, do arroz e do trigo é um verdadeiro “tiro no escuro”, tanto o produtor pode acertar como “errar feio” na hora de comercializar e quando isto acontece sofre grandes prejuízos com enorme redução na receita, tendo a necessidade de elevados aportes do tesouro nacional. Na lavoura do arroz irrigado há um sistema feudal no arrendamento da terra e da água no caso de quarenta por cento dos produtores, o que é um assunto fechado e ainda visto como um fator de “mercado”. Em 1993, escrevemos o artigo “A comercialização agrícola no tempo do fio de bigode”, sobre este tema. De lá para cá, passaram-se vinte anos e a situação pouco se modificou, ocorreu a democratização da informação, mas que ainda não trouxe a transparência ao ato comercial. São descontos descabidos, aperto na classificação, conversa mole, tergiversações, lugares-comuns, todos empregados no sentido de reduzir os preços dos produtos adquiridos dos agricultores. Em recente discussão sobre o trigo, houve a afirmação que o problema do produto não é a produtividade ou a sua qualidade de panificação, como toda hora é alegada pelos compradores e que o problema do trigo é o comércio. Os poucos agentes de compra encontram inúmeras desculpas para depreciar o produto na safra para comprá-lo barato logo mais adiante. Em carta aberta houve o questionamento da notícia veiculada na imprensa, mas o fato merece apoio e o desagravo diante da correção da afirmação feita. Não existe publicação de índices ou de informações dos descontos praticados pelos agentes do comércio ou da agroindústria ou comentários postados por produtores que tenham sido prejudicados ou gratificados em suas praticas comerciais e de negócios, como os que existem nos magazines que comercializam produtos na internet. O acesso a um comércio mais transparente irá elevar a renda do setor rural, aumentará os investimentos dos agricultores, haverá maior geração de emprego e renda no campo e “desacomodará” os atuais agentes de comércio. Hoje estes estão na posição tranqüila de “ganhar para trás”, estabelecendo sua margem de lucro na hora da compra do produto rural, ao invés de ganhar “para a frente” na direção do consumidor, oferecendo-lhe produtos transformados, diferenciados ou com valor agregado. O comércio de insumos e equipamentos também está na mesma situação. São praticadas margens elevadíssimas e que são desconversadas e atribuídas a “alta carga tributária”, “a alta do dólar”, “alta do aço” para esconder as altas margens de lucro que são praticadas. Ganham na margem do produto e não na quantidade vendida. Do lado dos agricultores e das suas assessorias há a imperiosa necessidade de exercer a cidadania comercial, indignando-se, reclamando, divulgando, buscando alternativas, seja na forma individual ou através de suas lideranças. Estas também não podem dividir-se ou ficar entre “dois corações”, exercitando apenas cargos honoríficos, tem que tomar partido da categoria, arregaçar as mangas e buscar soluções de mercado e não somente reivindicar junto ao governo. Este deve observar com equidistância, acionando seus órgãos fiscalizadores quando a situação assim exigir. Há casos em que o Ministério Público ou os demais órgãos de defesa do consumidor devem ser acionados. Os serviços nacionais de educação comercial e de apoio empresarial devem preparar também os agricultores e não somente os comerciantes urbanos no trato das questões de compra e venda e da estruturação de estratégias comerciais. Já temos o exemplo da democracia política, que tem sido boa para todos e, seguramente, com a implantação de uma democracia comercial todos sairão ganhando.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Um novo rural, novos negócios!

  

            A evolução do espaço rural da agricultura familiar da região sul do Brasil é inequívoca. Há a presença da energia elétrica em, praticamente, 100% dos estabelecimentos. O elevado índice de mecanização agrícola na condução dos cultivos reduziu a rudeza do trabalho e liberou parte da mão-de-obra e do seu tempo para o exercício de outras atividades.    
             Convive hoje, o agricultor familiar ainda com suas atividades relacionadas à terra, mas também com oficinas mecânicas, serrarias, pequenos matadouros, armazéns etc.
            Esta nova conformação trouxe também a  evolução da renda agropecuária e o ingresso de outras fontes de recursos, seja pelos ganhos de produtividade, pelo desenvolvimento de outras atividades, ou ainda, pelo acesso a aposentadoria rural e a outras políticas compensatórias.
            Na pesquisa “Caracterização do Novo Rural” dos professores José Graziano da Silva e Rodolfo Hoffmann, do Núcleo de Estudos Agrícolas do Instituto de Economia da Universidade de Campinas, citada na Edição Impressa 52 – Abril de 2000, da FAPESP Pesquisa On Line, em artigo de Cláudia Izique, é enfatizada a necessidade do PRONAF- Programa Nacional de Fortalecimento  Agricultura Familiar apoiar as famílias pluriativas, ou seja, que combinam atividades agrícolas e não agrícolas.
            Não obstante o elevado valor da pesquisa mencionada, o tema já fazia parte em nossas prosas na roda do chimarrão ao redor do fogo com o nosso pai, que observava em suas tropeadas, o que já ocorria no interior do município de São Lourenço do Sul-RS. Ali havia oficinas de ferreiros, fábricas de cepas de tamancos, barbearias e que isto ainda não existia em nosso município de Canguçu-RS.
            Hoje as possibilidades se descortinaram com a presença dos novos maquinários e equipamentos agrícolas, automóveis, motocicletas, eletrodomésticos, que permitem o estabelecimento da oferta de serviços para o conserto destes bens em tempo integral ou parcial.  Também, se observa a presença de caixeiros-viajantes, oriundos da sede do município trazendo mantimentos, frutas, pães, bolos etc, indicando que há possibilidade dos moradores locais dedicarem-se a estas atividades comerciais e de serviços.  A existência de festas de comunidades, casamentos e formaturas cada vez mais frequentes e requintadas, já possibilita a presença de institutos de beleza para que a mulher rural não necessite  mais ir à cidade arrumar-se e depois retornar ao interior para atender o seu compromisso social.
            Nos anos 80, já se observava no município de Nova Petrópolis-RS, na Rota das Hortências, a existência de produtores de leite, que manejavam seus animais e de quando em vez, ao parar um automóvel as margens da rodovia, largavam a sua atividade e corriam em sua malharia para vender um blusão, retornando à sua ocupação anterior logo em seguida.
            A percepção destas possibilidades e as atitudes necessárias para a sua viabilização passam por mudanças de conceitos do agricultor familiar e da sociedade urbana que com ele interage. Ao agricultor ainda lhe é impingido que não pode comprar nada e que tenha que plantar e criar de tudo, porco, frango, horta etc.  Ao  morador da cidade tudo é permitido comprar, pois pode ir ao supermercado abastecer-se e sentar-se à frente da televisão para consumir o que bem  lhe aprouver.
            Esta combinação de atividades agrícolas e não agrícolas além de ampliar a renda familiar, irá absorver aqueles jovens que possuem outras vocações, que não somente a atividade agropecuária, além de propiciar a sua independência financeira.
            Nos últimos planos de safra da agricultura familiar, ficou mais clara a possibilidade do financiamento destes investimentos (oficinas mecânicas, borracharia, serrarias, salão de beleza, padarias etc) através do PRONAF. 
O agricultor familiar possuindo a sua carta de aptidão de enquadramento no PRONAF pode ele, ou ela, investir em atividades agropecuárias ou não-agropecuárias, para a implantação, ampliação ou modernização da estrutura de produção, beneficiamento, industrialização e de serviços no estabelecimento rural ou em áreas comunitárias rurais próximas, de acordo com projetos específicos (MCR 10-5-4).
Esta oportunidade de negócios, que traz mais renda e progresso ao interior poderá ser financiada pelo PRONAF em dez anos de prazo com até cinco anos de carência.  Compartilhe esta informação! 

domingo, 18 de março de 2012

CONTRIBUIÇÃO À SOCIOECONOMIA DA LAVOURA DE ARROZ

CONTRIBUIÇÃO À SOCIOECONOMIA DA LAVOURA DE ARROZ

José Nei Telesca Barbosa

Engenheiro Agrônomo CREA/RS 24.886

Advogado OAB/RS 48.631

Especialista em Agronegócios MBA-UFRGS/UFPel

I - INTRODUÇÃO:

O arroz é uma das mais importantes culturas produzidas no Brasil. Sua contribuição na produção nacional de grãos varia de 15 a 20%. Cultivado praticamente em todo o País e tendo o seu consumo difundido em todas as classes sociais, ocupa posição de destaque do ponto de vista econômico e social, sendo responsável por suprir a dieta básica da população com um considerável aporte de calorias, proteínas e sais minerais.

Considerado um dos alimentos com melhor balanceamento nutricional, que fornece 20% da energia e 15 % da proteína per capita necessárias ao homem, o arroz é uma cultura extremamente versátil, que se adapta a diferentes condições de solo e clima, sendo considerado a espécie de maior potencial de aumento de produção para o combate da fome do mundo. (1)

II – ÁREA PLANTADA, PRODUÇÃO, PRODUTIVIDADE E CONSUMO NO BRASIL:

A Região Sul é a principal produtora, com o total de 72,95%, seguida do Nordeste, com 9,58%, Norte, com 8,31%, Centro-oeste, com 8,05%, e, finalmente, a Sudeste, com 1,10%.

Nessa distribuição é importante atentar para o fato que há grandes diferenças na produtividade média regional, com a Região Sul produzindo a média de 7.410 quilos por hectare, onde predomina o arroz longo fino irrigado, vindo a seguir o Centro-oeste, com 3.132 quilos por hectare, Região Norte, com 2.757, Sudeste, com 2.632, e Nordeste, com 2.028 quilos. Nessas regiões há a predominância do arroz longo fino produzido em sistemas de sequeiro, mas é encontrado também arroz longo e longo fino irrigado. (2)

Há que se ressaltar que, na última década, houve uma melhoria significativa na produtividade do arroz no Brasil, passando da média de 3.197 quilos por hectare para 4.824 quilos, ganho de 50,80%. O Rio Grande do Sul, por ser o maior produtor brasileiro, foi responsável por esse desempenho, pois no período sua produtividade passou de 5.520 para 7.600 quilos por hectare, ganho de 37,68%. (2)

Os dados sobre a área cultivada no Brasil mostram que esta teve um decréscimo no período e passou de 3.151.600 hectares para 2.858.100 hectares, com uma redução de 9,3%. No entanto, o Rio Grande do Sul, que é o maior estado produtor de arroz, passou de 962.050 hectares para 1.176.597 hectares ou 22,3% de aumento na área plantada.

A produção nesse período saltou de 11,076 milhões de toneladas para 13,613 milhões de toneladas, ao passo que o consumo estabeleceu-se entre 12,00 milhões e 12,800 milhões de toneladas, resultando em um estoque final que não baixou de 1,685 milhões de toneladas nos últimos dez anos.

III – OS PROBLEMAS E AS ALTERNATIVAS:

Diante desses dados promissores, as perguntas que devem ser feitas são: “Onde estão os principais entraves para que o cultivo do arroz no Brasil seja um negócio lucrativo para o produtor e seja demandado pelo consumidor a um preço justo e de forma suficiente?” E ainda: - Quais as alternativas que se apresentam?

1. Queda no consumo de arroz:

Tendo como fonte os dados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF): “Aquisição alimentar domiciliar per capita – Brasil e Grandes Regiões”, publicado pelo IBGE – que avalia as quantidades de alimentos adquiridos pelas famílias brasileiras para consumo domiciliar, numa comparação entre os anos 2008-2009 e 2002-2003, aponta uma queda no consumo médio per capita de arroz polido de 24,6 kg para 14,6kg ou uma redução de 40,5%. Redução deste porte ou de 45,6% já havia sido apontada em estudo da Profª. Semíramis M.A. Domene da PUC-Campinas tendo como base a comparação das POF(6-8), num intervalo de 28 anos (entre 1974 e 2002).

Interessante é que a informação do livro produzido pela Associação dos Engenheiros Agrônomos de Pelotas “Perspectivas e Alternativas da Agropecuária e Agroindústria do Município de Pelotas, 1986, em sua página 234, estima um consumo per capita de “42 kg de arroz beneficiado, nos anos de preços altos e em 47,5 kg, nos anos de preços baixos”. Os dados obtidos junto a essa fonte consubstanciam a elevada queda em percentual apontada nas pesquisas do POF/IBGE.

Tamanha redução no consumo somada ao acréscimo de produção e produtividade resultou em um excedente de produção e um conseqüente aviltamento dos preços recebidos pelos agricultores.

2. Séries históricas de prejuízos e custos elevados:

Segundo o trabalho realizado pelo Instituto Técnico de Pesquisa e Assessoria (Itepa), da Universidade Católica de Pelotas, estudando a produção de arroz em 28 municípios da Região Sul, na década de 1991 a 2000, concluiu que o produtor de arroz trabalhou no vermelho nestes anos. O estudo coordenado pelo economista Erli Massaú indica a descapitalização continuada na lavoura e mesmo que haja distorções nos números, o prejuízo foi elevado. Segundo o professor Massaú, após colhido, limpo e ensacado, o valor de produção do cereal aumenta em 83,9% e reduz substancialmente o prejuízo. “A atividade de produzir arroz e vende-lo ensacado foi extremamente deficitário, apenas as fases de comercialização e industrialização fizeram que o cereal fosse mais lucrativo”.

ANO CUSTO DA PRODUÇÃO VALOR DA PRODUÇÃO TOTAL DA VENDA R$/ano R$/ano sacas de 50 kg

1991 822.994.768,00 376.607.020,00 749.469.675 ( - )

1992 782.078.336,00 291.389.712,00 650.070.509 ( - )

1993 834.753.532,00 277.510.734,00 700.727.957 ( - )

1994 822.334.926,00 453.027.211,00 799.885.399 ( - )

1995 878.448.863,00 464.708.567,00 858.354.661 ( - )

1996 793.618.325,00 405.415.799,00 729.973.534 ( - )

1997 665.720.733,00 411.966.221,00 773.013.442 ( - )

1998 632.579.335,00 429.966.221,00 705.667.884 ( - )

1999 729.090.096,00 431.196.212,00 581.707.012 ( - )

Fonte: ITEPA/UCPel – Pelotas-RS

Noutro estudo publicado pela Revista Planeta Arroz Edição 39, de agosto de 2011, que tem como fonte a Conab e Emater referente aos anos de 2003 a 2011, assinalam que neste período que soma nove anos em 06 deles 03 resultaram em prejuízo para o produtor.

R$/saco de 50kg

SAFRA CUSTO DE PRODUÇÃO PREÇO MÉDIO LUCRO OU PREJUÍZO

2003 16,78 31,92 15,14

2004 23,11 31,63 8,53

2005 29,38 20,53 -8,85

2006 31,58 19,25 -12,33

2007 27,03 21,08 -5,95

2008 29,12 30,98 1,86

2009 28,05 27,22 -0,83

2010 29,92 27,03 -2,88

2011 28,76 21,39 -7,37

De acordo com a capa da mesma revista especializada em arroz, citando estudo elaborado pela Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul – FARSUL a baixa competitividade internacional deve-se ao impacto da carga tributária sobre os custos de produção e não parâmetros econômicos, tais quais demanda, produtividade, eficiência dentro da propriedade etc. “Enquanto um produtor gaúcho gasta 2.200 dólares para produzir um hectare de arroz, a média dos produtores argentinos, paraguaios e uruguaios é de apenas 1.392 dólares e dos arrozeiros norte-americanos é de 1.300”, aponta o estudo”.

Podemos dizer que a afirmativa é parcial e não entra no mérito dos custos internos da lavoura e, ao mesmo tempo não questiona outros fatores que levam ao elevado preço dos maquinários, equipamentos e demais insumos agropecuários, quando comparados “vis a vis” aos praticados no mercado agropecuário nacional. Há uma corrente forte de autores que atribui estes custos a elevada margem de lucro praticada no mercado interno, que fazem com que os produtos importados representem apenas 40% do mesmo produto vendido no Brasil (O Mito dos Preços Altos, Roberto Brizola –22/07/2002 e artigo de capa da Revista VEJA edição 2226 de 20.07.2011, A Preço de Banana?).

Na mesma direção do alto custo do saco de arroz produzido quando comparado com o preço médio de venda, em um estudo que tem como fonte o IRGA e que foi apresentado pela Federação dos Arrozeiros do Rio Grande do Sul – Federarroz, mostra que computado o período de 1990 a 2010, em 67% dos anos resultou em prejuízo para o produtor. Isto é, em 21 anos, 14 deram resultado negativo.

3. A antiguidade dos problemas:

A celeuma sobre as dificuldades da lavoura de arroz é um tema recorrente, antigo e se trata de um problema estrutural que vem sendo combatido com soluções paliativas, em especial por soluções de crédito e de políticas públicas de apoio ao setor. Tais medidas são insuficientes, pois não interferem nos pontos que realmente estão ao alcance dos produtores e de suas lideranças a resolução destes problemas. O Correio do Povo do RS do dia 07.04.2001 informa que, “há 35 anos, neste mesmo dia foi divulgado o manifesto do Congresso dos Orizicultores do Rio Grande do Sul com forte ataque ao Ministro do Planejamento Roberto Campos. O preço fixado para o produto era inferior ao da safra anterior”. A Coluna de Zero Hora RS, “ZH há 30 anos atrás” de 1º/02/2008 tem o título:-Produtores querem aumento – Com a elevação do custo de produção de arroz no Rio Grande do Sul, os produtores necessitam de um aumento de 50,6% no valor mínimo do produto, fixado em Cr$128,60. O pedido de reajuste será encaminhado ao governo federal. Novamente, na coluna ZH Há 30 anos atrás, de 16.06.2011, está a notícia: - Arrozeiros buscam ajuda em Brasília. “Acompanhados do secretário estadual da Agricultura, Balthazar de Bem e Canto, arrozeiros gaúchos partem hoje para Brasília. Eles debaterão com os Ministros da Agricultura e do Planejamento, Amaury Stábile e Delfim Netto, respectivamente. Os produtores vão pedir que o preço da saca de 50 kg de arroz suba de Cr$840 para Cr$ 992.

4. Os principais problemas da lavoura orizícola:

A) ARRENDAMENTO: De acordo com o Censo da Lavoura de Arroz Irrigado no Rio Grande do Sul – Safra 2004-2005, 35,5% dos agricultores são proprietários das áreas de cultivo e 64,5% são arrendatários de um dos fatores de produção, terra ou água. Dentre os plantadores 60,3% são arrendatários da terra de cultivo e 39,7% pagam arrendamento pela água usada na irrigação da lavoura. Com base nestes índices pode-se inferir que os 39,7% dos agricultores pagam o arrendamento sobre os fatores terra e água. O censo referido não aponta o valor médio pago pelos produtores pela terra e água cultivada sob arrendamento ou “parceria”. No entanto, consultando os agentes de assistência técnica das diferentes regiões arrozeiras do RS, pode-se afirmar que na Zona Sul do Rio Grande do Sul este valor varia entre 25% e 28%, no Litoral Norte é 32% e na Fronteira Oeste alcança 30%.

O pagamento deste montante pela utilização da terra e água se dá sem nenhuma contrapartida em insumos ou serviços pelo proprietário, fazendo com que ao valor pago ainda tenha que ser atribuído um valor de no mínimo 70% a mais como custo de produção da quantidade de arroz a ser pago.

Atribuindo-se um custo médio de 25% pelo arrendamento da terra e água de irrigação, isto significa que de 140 sacos por hectare colhidos em um primeiro momento, é repassado ao proprietário da terra e da água 35 sacos por hectare. No entanto, como o negócio é feito sem nenhuma participação do proprietário nos insumos e serviços, pode-se afirmar que juntamente com os 35 sacos por hectare estão indo juntos outros 24,5 sacos por hectare ou 70% a mais na forma de custo para produzi-los, visto que o proprietário não participou com mais nada, além da terra e da água de irrigação. Poderiam ser acrescidos outros custos ao produto entregue como pagamento, pois o mesmo se dá na modalidade seco e limpo e depositado em armazém previamente estipulado.

Além do custo do produto entregue ao proprietário, há casos em que os arrendatários ainda são onerados com serviços de plantio de forrageiras nas restevas, edificação de cercas ou locação de outras áreas para o apascentamento dos animais do proprietário. Deve-se ainda considerar que o arrendamento se dá apenas por um ciclo da lavoura de arroz, devendo a área ser devolvida ao proprietário, o que impede ao arrendatário preparar o solo na época mais apropriada, construir sede no local e ter outras atividades caso houvesse a utilização da área em tempo integral como prevê o Estatuto da Terra.

A problemática do arrendamento das áreas para o plantio do arroz inviabiliza economicamente o arrendatário, tendo o fato sido objeto de análise na Comissão Setorial do Arroz do RS, tendo sido anotado na Ata de 19.04.2011, nas linhas 102 a 110, a seguinte afirmação: Com relação ao arrendamento, aspecto que foi abordado na primeira reunião, na segunda não foi tratado, não consta nesse estudo e foi mencionado pelo secretário. Hoje o sistema de arrendamento foi modificado, visto que quarenta por cento dos produtores que pagam vinte e cinco por cento, pela terra e água, já saem, por ocasião do plantio, sabendo que vão chegar ¨no vermelho¨ na colheita e comercialização. Então talvez este seja o principal problema da lavoura de arroz, hoje. E como o arrendamento é um sistema de safra, não é porteira fechada, impede todos esses usos alternativos da área de arroz para outros cultivos e outras criações. Tem que constar na Comissão”.

O presidente da Federação das Cooperativas de Arroz do Rio Grande do Sul -FEARROZ e da Associação Brasileira da Indústria de Arroz – ABIARROZ e coordenador por oito anos da Câmara Setorial Nacional do Arroz, em entrevista a Revista Planeta Arroz, Edição 39, quando perguntado “Que pontos trabalham contra a lavoura? Respondeu: - Creio que um dos principais seja o elevado custo de produção. O problema é que um alto percentual de produtores não tem como controlar alguns itens desse custo. Não posso conceber como viável um negócio que retire da renda bruta parcela que comprometa de 25 a 30%, caso da maioria dos 65% de produtores que são arrendatários. O problema não é exatamente o percentual, o problema é que este percentual extrapola os itens terra e água e passa a incidir sobre o incremento da produção resultante da tecnologia adquirida pelo produtor e sua capacidade gerencial. A lavoura de arroz é uma lavoura cara e exige alta tecnologia, e o produtor/arrendatário termina deixando incidir aquele percentual sobre a parte da produção que é resultante da sua gestão e da tecnologia aplicada, nada tendo a ver diretamente com a capacidade produtiva da terra ou do insumo água. Outros itens problemáticos são tributação, logística, armazenamento, comercialização e tecnologia. Investimento em tecnologia precisa ser feito de modo criterioso, só aplicando-a em condições ideais, em áreas que proporcionem retorno suficiente para pagá-la e permitir sobra. Também é importante o controle rigoroso de gastos dos recursos auferidos nos raros anos em que se conjugam boa safra e bons preços. Há muito a ser feito pelos produtores, e muito que independe da sua atuação.

B) MONOCULTURA - A lavoura de arroz na maioria dos estabelecimentos é a única fonte de renda do orizicultor. Embora seja uma lavoura com baixa taxa de risco de frustração na produção, apresenta alta taxa de risco da ocorrência de frustração no preço, especialmente para aqueles produtores que tão logo colhem a produção, necessitam vendê-la para fazer caixa, pois, normalmente na safra os preços tendem a ficarem deprimidos em função da maior oferta.

O Grupo de Trabalho 1 da Comissão Setorial do Arroz do RS no item justificativas do item 2 dos “Encaminhamentos” diz que: - “Os solos de várzea da região produtora de arroz da Zona Sul em cerca de 1/3 da sua extensão apresentam amplas possibilidades de plantio com soja com plena expectativa de sucesso, já amparados pelo Zoneamento Agrícola e com tecnologia conhecida; há necessidade de fomento ao aproveitamento da facilidade de irrigação das áreas de várzeas para outros cultivos ou pastagens”.

Neste item pode ser acrescida, além da alternativa do uso das várzeas, a diversificação do uso do arroz como em ração animal diretamente no cocho ou na mistura com outros produtos ou com outros suplementos. Nesse caso, o produtor teria um maior controle da oferta, transformaria o grão em um produto mais nobre, que é a carne mais valorizada, evitaria os descontos sobre a parcela da produção que tem menor qualidade de engenho, somente oferecendo ao mercado grãos de maior qualidade.

C) ALTO VALOR IMOBILIZADO: É muito grande os investimentos existentes em máquinas e equipamentos (tratores, colheitadeiras, semeadeiras, silos, secadores), em especial pelo alto grau de individualismo e conseqüentemente o baixo nível de organização existente entre os produtores. A dificuldade de implantação de modelos associativos acaba gerando um custo elevado de carregamento do custo financeiro do imobilizado, além do que praticamente todo o investimento está voltado para a produção e quase nada para a agregação de valor. No que tange aos maquinários a publicação da AEAPEL (3), mencionava que em 1986 “a relação CV/ha é de 2,6, mostrando que o setor está bem”. Este índice reflete o nível alto de investimento em maquinario bem acima do recomendado de um KW/ha.

D) BENEFICIAMENTO E COMERCIALIZAÇÃO: A comercialização tem sido um dos pontos de estrangulamento da atividade, eis que após um período dedicado as atividades internas da lavoura, o produtor vê-se diante da necessidade de buscar a melhor comercialização para o seu produto. Como não há nenhuma preparação anterior e nenhum mecanismo de formação antecipada de preço, a maior parcela dos produtores sem outra alternativa de comercialização é presa fácil dos engenhos, que há mais de 40 anos trabalham na sistemática de adquirir a matéria-prima, descascar, embalar e repassá-la aos supermercados.

Com o passar dos anos e sempre ocorrendo o mesmo modelo de comercialização, os engenhos passaram a estruturar-se para receber a produção. Ampliaram os seus agentes de compra e suas capacidades de armazenagem fazendo com que cessassem os efeitos que eram normais da variação dos preços da safra para a entressafra, comuns em épocas anteriores. Dessa forma, mesmo os produtores mais capitalizados e com armazenagem própria não conseguem mais se beneficiar da vantagem competitiva que possuíam em relação aos menos capitalizados que entregam a depósito nos engenhos.

Os engenhos, por sua vez, acomodaram-se em ter a sua renda no momento da aquisição do arroz do produtor, não se preocupando em transformar o produto e ter a maior fatia do seu ganho sobre o consumidor. Como já temos publicado, o engenho não tem procurado investir em inovação, buscando transformar-se em uma indústria de alimentos aos moldes da cadeia do frango, que produz já mais de cem diferentes produtos.

A falta de inovação que se reflete em um produto final comercializado ainda na mesma embalagem de 40 anos passados, apresenta a dificuldade de obter renda diante de um consumidor mais capitalizado, com ânimo em investir em produtos mais sofisticados e que tragam maior satisfação, saúde e comodidade. Algumas empresas transnacionais de alimentos, já estão produzindo farinhas enriquecidas, cereais matinais, barras de cereais e bebidas “lácteas”, tudo que tem como principal veículo o arroz.

5) Alternativas para a geração de receita para a cadeia do arroz;

A geração de renda para todas as partes envolvidas na cadeia do arroz passa por modificações importantes nos intervenientes do processo. O avanço tecnológico ocorrido nos últimos anos tem chegado às lavouras apenas pelo avanço extraordinário da produção e produtividade destas e nos engenhos pelo aprimoramento do produto, mas ainda apenas para a “hora do almoço”. Também outras adequações aos “novos tempos” devem chegar as relações contratuais da terra, ao mercado e consumo, como se pode ver abaixo:

a)Arrendamento: Nos aspectos inerentes ao produtor devem ser renegociados os contratos agrários, propiciando o estabelecimento de parcerias efetivas com os proprietários das terras em que haja à divisão do resultado final do negócio, sendo ele positivo ou negativo como prevê o Estatuto da Terra. O uso das terras deve ser por tempo integral ou em que as parcerias envolvam as atividades pecuárias do proprietário, propiciando o aumento da produtividade e da renda desse negócio. Este novo modelo proporcionaria a diversificação de atividades nos modelos de integração lavoura-pecuária, diversificação da lavoura de arroz com soja e a implantação de pastagens cultivadas com maior rentabilidade destes sistemas de produção. Isto, recentemente, passou a ser estimulado pelo Governo Federal, através da linha de crédito para a Agricultura de Baixo Carbono – ABC, com taxas favorecidas, carência e prazos longos. No entanto, o fator arrendamento está impedindo o acesso desta parcela de produtores a este importante programa oficial.

b)Beneficiamento próprio: O produtor pode avançar na direção do consumidor oferecendo o produto já beneficiado, seja através do beneficiamento próprio, terceirizado ou cooperativado. Este acréscimo da renda já é apontado pela CONAB, que informa em sua página na internet (www.conab.gov.br/conjuntura/arroz): - como exemplos: - a partir do preço pago ao produtor na semana de 12 a 16.09.2011 pelo arroz em casca de R$ 24,44/saco/50kg, em Pelotas-RS, e de um preço do arroz beneficiado de R$44,86/fardo/30kg no atacado em são Paulo, sobra ao produtor R$31,19/saco/50kg base casca (decompondo o preço do atacado até ao produtor em Pelotas-RS). Na sua última atualização, referente a semana de 27/02 a 02/03/2012, a CONAB informa que a partir do preço do arroz em casca de R$26,86/saco/50kg, em Pelotas-RS, e de um preço do arroz beneficiado em SP de R$47,18/fardo/30kg sobra ao produtor R$33,10/sc50kg.

A mudança do padrão do arroz a ser comercializado deve passar do arroz em casca para arroz beneficiado através da Bolsa de Mercadorias, sendo que já existem tentativas de comercialização via bolsa, porém ainda na modalidade em casca. A comercialização ainda deste modo não permite o acesso ao mercado nacional dos atacadistas, supermercados, restaurantes industriais etc, por isso o padrão deve mudar para arroz beneficiado para sair do mercado regional.

Esta alteração na sistemática de venda do arroz em casca pelo produtor, passa pela modificação de um conceito que está arraigado entre os agentes do agronegócio brasileiro. Há a necessidade de um esforço conjunto e institucional das entidades de pesquisa e extensão que atuam no setor orizícola e das associações e sindicatos de produtores, demonstrando a possibilidade do beneficiamento ser realizado na propriedade ou através de cooperativas ou ainda, mediante a integração efetiva com os atuais engenhos.

c) Novos usos para o arroz: Há cerca de 10 anos, o pesquisador da EMBRAPA/Agroindústria José Luiz Viana de Carvalho, publicou na revista Planeta Arroz uma listagem de produtos que podem ser feitos com o arroz, além do tradicional “arroz no saquinho”. Dentre outros constam: - cereais matinais, macarrrão, pão, biscoitos, snacks, farinha enriquecida, bebidas isotônicas etc. Além de possuir um maior valor agregado que permite uma melhor remuneração pela matéria-prima, esta ação irá proporcionar o aumento do consumo, fazendo com que o arroz chegue ao consumidor em outros momentos da refeição e não como hoje, somente na “hora do almoço”.

Sem dúvida, que a apresentação do arroz há cerca de 40 anos na mesma embalagem do “saquinho plástico”, não desperta o interesse de compra do consumidor, tendo que ser estimulada a adoção de mais pesquisa e desenvolvimento pelos atuais engenhos, fazendo com que passem a se apresentar como indústria de alimentos. O caso da indústria do frango é exemplar, visto que esta há muito deixou de ter como produto principal o “frango inteiro”, congelado e com pés e miúdos dentro. Hoje, estas empresas trabalham com cortes variados, e para mercados diferentes, além de produtos processados de alto valor agregado.

Recentemente vem sendo discutida a possibilidade de uso do arroz na ração animal. Já existem notícias de produtores que vem usando o produto em casca direto na dieta diária de novilhos para engorda ou em mistura com suplementos, bem como o incentivo de políticas oficiais para a utilização do arroz na ração de suínos e aves. O bom desempenho obtido nos experimentos realizados, que são semelhantes ao obtido com o milho, permite recomendar essa nova aplicação para o produto. Um dos maiores problemas que emperra a adoção desta prática é a grande mudança de comportamento que é exigida do produtor que, ao invés de continuar vendendo o arroz apenas para o engenho, precisa direcionar a sua produção também para os pastos, fato que até então, nunca havia imaginado.

A diversificação do uso do arroz como ração animal diretamente no cocho ou na mistura com outros produtos ou com outros suplementos propicia que o produtor tenha um maior controle da oferta, transforme o grão em um produto mais nobre, que é a “carne” mais valorizada, evitando assim, também os descontos sobre a parcela da produção que tem menor qualidade de engenho e, por conseqüência, oferecendo ao mercado somente os grãos de melhor qualidade.

d) Diversificação de atividades: Este item, embora já mencionado no item “a” (logo acima), merece ser repassado, pois interessa também aos proprietários das áreas de produção. Senão vejamos, o aproveitamento de parte das áreas para o plantio de soja, apresenta bons preços de comercialização, alto retorno sobre o capital investido e a intensificação dos sistemas de produção da pecuária de corte são medidas essenciais para a capitalização dos produtores hoje dedicados apenas ao cultivo do arroz.

e) Exportação: a exportação do arroz vem crescendo, atingindo um valor médio de 843 mil toneladas/ano, que ajuda a escoar o excesso de produção, mas não se constitui na “grande saída”, que se imaginava em períodos anteriores. Até mesmo porque, o mercado internacional apresenta poucas trocas comerciais de arroz, alcançando um valor médio de 5% da produção mundial, em vista que os países que são os maiores consumidores também são grandes produtores do cereal. Ainda mais que quem exporta a produção é o engenho, que não tem repassado o ganho ao produtor. Neste último ano de 2011 atingiu cerca de 1.988.001 toneladas (IRGA), em grande parte devido ao programa governamental PEP – Programa de Escoamento da Produção, que subsidiou em R$7,00/saco a operação. Para a próxima safra há a previsão da CONAB para uma exportação de 600.000 toneladas.

f) Campanha de aumento do consumo: Tem sido bastante divulgada a intenção de levar adiante campanhas de aumento do consumo do arroz, inclusive ressaltando suas propriedades funcionais. Em função da mudança de hábito na alimentação do brasileiro, que procura cada vez mais os restaurantes de comida a quilo, tem-se que o arroz tem dificuldade de concorrer com outros alimentos mais trabalhados nos bufês, como lasanhas, empanados, carnes variadas etc., que na balança tem o mesmo preço. Sem tirar o mérito da iniciativa, vemos com poucas chances de ter impacto sobre o aumento do consumo, constituindo-se apenas em uma louvável iniciativa no que tange aos aspectos saudáveis de alimentação. Nesse item, nos parece com melhor possibilidade de sucesso o apelo ao uso do arroz integral, orgânico, agroecológico ou biodinâmico, que atinge um público cada vez mais preocupado com as questões de saúde e disposto a desembolsar um pouco mais em comidas saudáveis.

g) Novos negócios: A evolução tecnológica ocorrida no interior do país, permite visualizar que há a oportunidade da realização de outros negócios que não só mais agricultura e pecuária. Poderão estabelecer-se agentes especializados em armazenagem, prestação de serviços de secagem, plantio, colheita, oficinas, fabricas de ração etc. O surgimento do silo bag, oportuniza a secagem nestes “entrepostos” e o retorno do arroz para a armazenagem nesta modalidade na propriedade dos agricultores. É importante que as linhas de crédito, já estão acompanhando estas modificações, mas ainda não ocorreu o surgimento de empresários com este novo tipo de visão, “fora da porteira”.

h) Etanol de arroz: Surgiu recentemente a discussão deste tema, que parece muito importante para o controle da oferta do arroz. Mais importante ainda, pois que este controle se dará sem a intervenção do Governo Federal, que tanto gasta com o carregamento dos estoques que se avolumam há anos em armazéns privados e a custos altíssimos. Já existem estudos avançados para o uso do arroz e outros cereais para a fabricação de álcool. Para o arroz já há o exemplo e em funcionamento no município de Jacinto Machado-SC da empresa ROZALCOOL, em funcionamento desde 2007 segundo o seu site, e que podem ser obtidas mais informações em www.rozalcool.com.br . Tem-se o exemplo recente do milho, que a partir do uso do álcool nos EUA teve o seu preço valorizado no Brasil.

O uso do arroz para a produção de etanol, parece que não pode ser visto como um problema ou como causador de uma possível escassez de alimentos, pois há espaço para aumentos de produção e produtividade e, principalmente, para o retorno dos demais produtos agrícolas, que foram “sufocados”, no passado, pelos fantásticos incentivos do Governo federal dados ao arroz, em detrimento do feijão, batata-inglesa, mandioca etc. Outro ponto importante a considerar é que após a retirada do álcool do cereal, sobra um resíduo que pode ser usado na ração animal. O estudo do aproveitamento deste material como ração poderá compensar o direcionamento do arroz para etanol, através da transformação do seu resíduo em proteína animal.

i) Câmara Setorial do Arroz: Em importantes iniciativas, a União e o Governo Estadual do RS, implantaram a Câmara Setorial do Arroz, nacional e estadual. A primeira de pouco efeito prático e a segunda já com alguns resultados, em especial o direcionamento do IRGA – Instituto Riograndense do Arroz para a pesquisa e o incentivo ao plantio de soja nas várzeas. A EMBRAPA deu inicio as pesquisas para o uso do arroz em casca para o arraçoamento de bovinos e o uso da silagem do arroz verde. Até a pouco, os esforços destas duas instituições eram direcionados para o aumento da produção e produtividade, através dos Projetos 10 (dez toneladas/hectare) e Marca.

A implantação de comitês de Política Agrícola, em que haja a mobilização dos produtores e engenhos, devem ser coordenados pelas lideranças do setor, através de suas associações e sindicatos, bem como da EMBRAPA, IRGA, Universidades, Ministério da Agricultura e técnicos da área, de modo que a Política Agrícola para o arroz, seja discutida em suas várias nuances e não chegue aos governos apenas através de apelos e reivindicações de lugares comuns.

O uso do arroz para outros produtos ainda é muito incipiente, havendo necessidade da mobilização das universidades das regiões produtoras, da Embrapa Agroindústria, localizada no Rio de Janeiro e do Laboratório de Panificação da Embrapa Trigo.

j) Educação financeira: Por ser uma lavoura que envolve a inversão de vultosos recursos operacionais na implantação e colheita e na comercialização da produção, a lavoura de arroz requer muita atenção por parte do agricultor quanto à gestão destes recursos. Ainda mais, que os demais agentes envolvidos na venda de adubos, agrotóxicos, máquinas e veículos para os agricultores são melhores preparados nas lides comerciais do que os agricultores. Assim, estes devem ser treinados pelos agentes de assistência técnica no desenvolvimento de técnicas de administração visando a sustentabilidade da renda do produtor rural. Ações que compreendem um Plano de Negócios (produtos e serviços, planejamento estratégico, análise de mercado, comercialização, finanças etc), devem ser empregadas na administração dos empreendimentos orizícolas.

Com a adoção das alternativas apontadas acima, acreditamos que o arroz terá um novo posicionamento diante do mercado, irá adquirir independência das políticas oficiais e terá aumentada e distribuída a tão sonhada renda entre todos os agentes da cadeia de produção.

BIBLIOGRAFIA:

  1. Arroz Irrigado no Sul do Brasil, EMBRAPA, 2004
  2. Análise de Safra, Paulo Morcelli, CONAB/Planeta Arroz , agosto 2011
  3. Prospecção para a Safra 2011/2012, CONAB
  4. Perspectivas e Alternativas da Agropecuária e Agroindústria, AEAPEL, 1986
  5. A preço de Banana? Revista VEJA, 20.07.2011
  6. Censo da Lavoura de Arroz Irrigado do RS, IRGA 2006
  7. Pesquisa de Orçamentos Familiares 2008-2009, IBGE
  8. Tendências de Consumo de Alimentos Industrializados pela População Brasileira, Semíramis M.A Domene, PUC Campinas
  9. ITEPA, Diário Popular, pg 18, 15.06.2003
  10. O Mito dos Preços Altos, Roberto Brizola, 22.07.2002
  11. Revista Planeta Arroz, Edição 39, agosto 2011

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Resposta ao Sr. Oscar,


(Referente a sua indagação na www.planetaarroz.com.br)

Sr. Oscar,

Importante o seu interesse pelo tema "arroz na raçao animal", assim como as orientações do Dr. Caio. Encaminho o link abaixo que trata do assunto já com resultados práticos para bovinos de corte:

www.estanciaguatambu.com.br/php/noticia.php?idnoticia=441

Também o Dr. Jorge Schafhäuser Jr. da EMBRAPA/CPACT possui trabalhos em andamento e, certamente, terá o maior interesse em prestar-lhe informações sobre as pesquisas em andamento pelo telefone 53-3275-8400

O IRGA também poderá auxiliá-lo em mais informações.

No caso de suínos e aves há um trabalho da Universidade Federal de Viçosa que poderei lhe repassar por e-mail - remeta-o para jntb@via-rs.net

Atenciosamente.

José Nei

domingo, 14 de agosto de 2011

O seu boi já comeu arroz hoje?

O seu boi já comeu arroz hoje?

Em algumas regiões da Ásia o consumo de arroz é tão popular, que as pessoas costumam se cumprimentar dizendo: “Você já comeu o seu arroz hoje?”, o equivalente ao nosso “Tudo bem?”. No Brasil, o arroz já teve um consumo mais elevado, sendo que a maioria das famílias da minha geração foi criada com o saboroso “arroz com feijão”.
No entanto, nestes últimos anos, o Brasil desenvolveu um crescimento econômico de tal forma que resultou em um significativo aumento na renda das famílias. Com maior poder aquisitivo, as pessoas alteraram uma série de hábitos fazendo com que o consumo do arroz decrescesse significativamente. Não bastasse isso, muito se aprimorou as técnicas de cultivo do arroz e pouco foram trabalhadas alternativas de consumo, o que resultou num grande excedente de produção.
No município de Dom Pedrito-RS, região com pequena produção de milho, um produtor de arroz e pecuarista, para atender compromisso de entrega de animais prontos em um período que a região atravessava forte estiagem, resolveu racionar seus animais com uma dieta composta com arroz em casca. O trabalho foi assessorado por especialistas em nutrição animal e apresentou excelentes resultados e teve ampla divulgação em seminários e na mídia especializada.
Num primeiro momento a informação causou grande impacto, pois se dava a quebra de um paradigma que tira a visão de um produto sempre direcionado à “panela” e que passa a ser redirecionado para o “cocho” animal. O “quadrado” em que moldamos o nosso pensamento teve uma dificuldade inicial muito intensa de aceitar esta inovação, pois se tem que o arroz é um produto nobre e deve ser direcionado para a alimentação humana. Agora, já fora do “quadrado” cabe-nos ver o arroz compondo a ração animal. E que, o que temos que enxergar, é que o arroz tendo este novo uso, resultará em um produto também nobre e mais valorizado, que é a carne. E a carne atinge um consumidor com maior renda e sedento por proteína animal.
Além do uso do arroz para a alimentação de bovinos, já está confirmada por pesquisas existentes a possibilidade de entrar na composição da ração de suínos e aves.
O simples cálculo comparativo com o saco de milho não é suficiente para que o produtor consiga vencer este dilema e passe a adotar esta nova ferramenta. O fato do saco de arroz ter 20% a menos de peso que o saco de milho e com isso teria que ter uma diferença de 20% a menos no preço, não é indicativo necessário e suficiente para ver se o negócio é compensador. Há outros raciocínios não meramente matemáticos que irão estimular o produtor a usar o arroz para o arraçoamento dos animais, tais como:
- O uso do arroz desvalorizado na ração de bovinos de corte é compensado pelo excelente preço alcançado pelos animais no momento da venda;
- Normalmente, as granjas de arroz não produzem milho para a suplementação alimentar da pecuária de corte;
- Nos períodos de inverno, as vacas de cria e os terneiros sofrem uma enorme perda de peso em decorrência da escassez de alimentos, chegando estes últimos a retardar em um ano o seu tempo de abate;
- O arroz de menor rendimento de engenho, que possui baixa cotação no mercado sofre altos descontos na hora da comercialização, é submetido a parboilização e tem recuperado o seu maior valor, só que agora já na mão do engenho. Este “novo arroz” acaba concorrendo com o produto de melhor qualidade que ficou com o produtor.
- O arroz quando destinado ao consumo animal acaba sendo retirado do mercado, contribuindo para o controle da oferta e valorizando o produto ainda no estoque do produtor;
- Com a destinação do arroz para a ração animal será reduzido o alto custo governamental com o pagamento de subvenções de prêmios para o escoamento da produção;
- Também diminuirá o alto custo com o aluguel de depósitos pela CONAB para o armazenamento do arroz, que hoje chega a R$0,26/mensal por saco depositado;
- Reduzirá as perdas de qualidade do arroz nos armazéns, visto que alguns permanecem já por mais de quatro anos estocado;
- Não há necessidade de políticas públicas para o uso do arroz na ração animal, basta apenas uma atitude dos produtores na alimentação do seu gado ou através da parceria com outros criadores;
- Com essa nova destinação dada ao arroz será possível prosseguir na busca do aumento da produtividade e da produção e ter-se o pleno aproveitamento das várzeas com o plantio do cereal, já que haverá uma nova demanda por arroz.

Para que o propósito seja alcançado é necessária uma grande e “difícil” mudança no comportamento do produtor, que até então vinha direcionando o seu produto apenas para o engenho e, agora, também deverá levá-lo também na direção dos seus potreiros.
Esta é mais uma das tantas alternativas que já foram sugeridas!
Tudo bem? Já deu arroz para o seu boi hoje?